terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Sol de Gent

Oil Painting,  Lina Garrana, Under The Sun

Gent me ensinou a vibrar pelo sol. Sou mais feliz por aqui, porque estive lá. Muitas vezes, acostumada, esqueço de sua presença. Mas ai vem a chuva, e tão logo ele volta eu o vejo e sinto, e sinto também uma emoção que aprendi a sentir em Gent. Sinto que senti saudade do sol quando ele faltou, que o vazio estranho e sem explicação fez-se claro e preenchido. Eu nunca mais serei a mesma, porque me desprendi de tudo e de todos e agora aprendi o que me faz falta, o que me faz bem. Entendi finalmente que não preciso de nada, e que não tenho nada. Tudo são presentes e mimos que podem me ser dados ou não, dia após dia. E eu escolho recebê-los ou não, enxerga-los ou não. Dia após dia. Pois pode ser que o sol saia, pode ser que não. Mas foi também em Gent que eu aprendi a apreciar a chuva. Molhar não faz mal. Depois seca.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Chuva fina

Chuva fina


Rain Princess (Leonid Afremov)


Depois que compramos os ingressos do filme, uma amostra do festival de cinema da cidade, fomos para o bar, dentro do complexo do cinema, esperar uma horinha. O lugar era bem escuro em tons de azul e preto, praticamente não havia luz sobre nossas cabeças, apenas nas velas elétricas sobre as mesas, um painel azul no bar, e os reflexos de vários espelhos. Sentamos e pedimos duas cervejas, quaisquer, pois era a única bebida que existia e era sempre boa. Para mim a cidade era mágica e flutuava sobre o mapa de forma que não poderia saber ao certo minha localização. Eu flutuava. Lá vivíamos vidas paralelas às reais, já que nada ali era nosso. Lá as vidas costumavam durar apenas um ano, depois disso, acabavam simplesmente, despareciam. Conversamos como dois velhos amigos que se amam e se conhecem bem. Estranhamente não faltara assunto, muito embora tudo que mais queríamos dizer não era expresso por nenhuma daquelas palavras, contudo, não havia também nada escondido, tudo estava declarado, descaradamente, e tudo se lia nos nossos olhares, sorrisos e entrelinhas, muitas entrelinhas e borboletas na barriga, o que causava um desconforto bom. Isso dava aos outros, ao nosso redor, uma imagem a ser interpretada, já que era comum que ali, cada pessoa falasse uma língua diferente e pessoal, que não era entendida por nós, e vice-versa. Logo, ninguém entenderia nenhuma palavra do que dissemos, mas entrelinhas podem ser lidas por qualquer um, independente do idioma. A verdade é que pouco nos importavam os outros, qualquer outro, durante toda aquela vida. O tempo passava rápido, quase uma hora e a garrafa ainda meio cheia, perdia das palavras a competição pela boca. Era arrasadora a sensação de perceber o tempo passar. O que ainda nos confortava era saber que pelos próximos minutos estaríamos sentados lado a lado, de mãos dadas. Ao sair, notaríamos que o céu encoberto, sem lua nem estrelas, guardou uma chuva fina, completamente invisível e pouco perceptível (entrelinha), porém concreta e constante (palavra na linha), para nos lembrar que assim também seria nosso amor, até o fim dele.

sábado, 20 de julho de 2013

A esperança morre


 
                                                                              Silvia Grav

Dizem que a esperança é a ultima que morre. Deus que me livre! Mata logo isso! Porque bom mesmo é não ter esperança. É não esperar. A esperança cria essa expectativa em torno de algo que não se pode controlar. Causa sofrimento e angustia.
Sabe, uma das coisas que minha mãe tentou me ensinar mas eu obviamente não aprendi com ela e sim com a vida foi não esperar. Ela me via chateada com alguém por não me agradecer o presente ou o cuidado que tive com ele. Ela me dizia “Filhota, as pessoas são diferentes, você não pode esperar que ele se comporte da maneira que você se comportaria na mesma situação.” Com o tempo eu incorporei isso. Aliás, hoje em dia são pouquíssimas as pessoas que se comportam como eu. E eu não sofro mais com isso. Mas ai vem essa tal de esperança me roubar a paz. “Mas e se..?” é o que eu me pergunto. Outro problema que eu criei ao longo da minha vida (falo como se eu já tivesse vivido muito!) foi essa liberdade. É verdade, ela é linda. Também é verdade que eu busquei por ela e que eu sou melhor por causa dela. Mas às vezes ela me mete em armadilhas. Veja você que eu me permito demais. Me permito viver, me permito sentir e me permito sonhar. E essa fantasia toda me leva a ter esperança. E a esperança me dói.
Está bem, vamos ser objetivos. Eu e você estamos fugindo de um diálogo honesto e sincero porque sabemos que ele é difícil. Acho que tenho medo de pontos finais e você de recomeços. A questão é que eu não quero ter esperanças, mas eu tenho, e sempre vou ter, porque ela é inerente ao ser humano. No entanto eu até administro isso bem. Mas as coisas fogem completamente do meu controle quando eu acho que você tem esperança ou quando você me dá uma ponta de esperança qualquer. Nós dois sabemos que estamos brincando com fogo. Nós dois sabemos que é perigoso e isso torna as coisas ainda mais interessantes, não é? Foram dois momentos: 1. Seu descontrole naquela noite. Seu desabafo de admiração. Seu desejo de que a vida tivesse sido diferente, que você tivesse me conhecido antes, de ser meu namoradinho da faculdade, de viver um amor adolescente comigo. Isso me surpreendeu. 2. Vc entendeu errado a mensagem no celular (ato falho?) e respondeu algo novamente inesperado pra mim. Eu não estava te pedindo em namoro (de novo). E sua resposta foi como se pedisse tempo para pensar. Desde quando isso virou uma possibilidade, mesmo que remota?
Essa esperança me mata! Eu não quero tê-la porque ela me machuca. Eu gosto de ouvir você dizer que não tem escolha. Porque essa é sua escolha. E se você decidiu, tá decidido. Eu não quero te causar problemas. Eu gostei de ouvir sua resposta pra minha pergunta. “você quer namorar comigo?” “Seria lindo, seria enorme”. Você me disse não da maneira mais linda que poderia dizer. E eu entendi. Nunca seremos (Capitão Nascimento? Uma piadinha).
O que eu quero, é que você me explique de mansinho e com cuidado que não há esperança.

Quero que você entenda que você é a única pessoa que eu conheço que se comportaria como eu na grande maioria das situações. Que pensa como eu sobre quase tudo. Você é muito parecido com o homem eu quero pra mim, para minha vida. Você me completa numa forma muito parecida com a forma completa. O amor que eu sinto por você é velho, porque eu te amei desde a primeira conversa até hoje. Saiba também que eu aprendi o quão confortável é viver longe de você. Porque perto de você eu te quero demais. E é difícil lidar com esse sentimento tão grande. Mas eu sinto saudade de não te ver tanto e eu não quero que você se afaste porque não há dor nem amor tão grandes que nunca acabem. No entanto, agora, parece que eu vou te amar para sempre.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nunca há sempre



Nada é feito para durar. Muito embora possa continuar existindo, mas com função e aparência diferentes. 

Na maioria das vezes não há desistência, nem abandono, nem decisão. O que há é a necessidade, a pressão e a força que mudam as coisas que insistimos em manter iguais.

As coisas passíveis de mutação são todas: pensamentos, opiniões, sentimentos de amor ou rancor, laços, hábitos, rotinas, amizades, climas, vidas.

A coisa que destrói é na maioria das vezes a natureza. A natureza. A necessidade de acabar e sumir para dar lugar a coisas novas. A pressão do tempo. Tempo. Tempo. Tempo. A força da natureza (incluindo a humana) de seguir mudando.

As paisagens mais naturais são as mais mutáveis. Muito embora isso não signifique sempre uma perda de identidade: uma floresta pode permanecer sendo floresta por milhares de anos, no entanto, experimentar mudanças diárias, por vezes sutis, como uma plântula pequena que surge, as vezes bruscas, como a queda de uma grande árvore, porém constates e visivelmente transformadoras ao longo de anos.

Não posso me desesperar! Não foi feito para durar. É só a criação do espaço vazio para que o novo ocupe. E esse novo virá de forma surpreendentemente reconhecida, porque substituirá o vazio de forma inesperadamente natural e com sensação de velho. Porque se olharmos com olhos de imortais, cada vez mais nós somos o que já fomos, a vida cicla.

Em outras palavras: é só saudade.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Atitude e graça



Atitude e graça são duas qualidades inerentes ao Cearense. “É cabra da peste sim senhor.” Uma gente simples que transborda requinte e bom gosto. Tão humildes que sobram em sabedora. Um povo profundo e livre, demasiado livre.

O Cearense tem atitude, ele não sabe não ter. Ele é o que é, goste ou não goste. É “arretado” mesmo. Fala o que pensa do jeito que sabe. E como sabe... Povo trabalhador, não teme o sol nem o suor. Do mais pobre ao mais rico, você há de escutar “o trabalho enobrece o homem”. Tem horror a vagabundagem, a malemolência, ao ócio. Tem pavor do espertalhão que só quer se dar bem. Ninguém “só se dá bem”. Só se colhe o que se planta. “Tem que honrar as calças que ti vestem, homi.” Tem que honrar, fazer por merecer. É assim que é. Se você é estudante, sua responsabilidade é cumprir horários de estudos, tirar notas boas, se esforçar ao máximo. Você não tem que ser o melhor da turma, não tem que se destacar, mas tem que merecer o livro que lê, a roupa que veste, o almoço que come e a cama que dorme, era o que meu pai dizia e minha mãe apoiava. Se é trabalhador então, nem preciso falar. Tem que atuar, não pode passar batido. Pode fazer o mesmo que mil pessoas, mas tem que ter a sua assinatura em algum lugar. O Cearense é único. Sua atitude está em tudo. No seu jeito de vestir, de andar, de comer, de falar, de namorar, de cantar e dançar. Dispensam até o português. Língua para eles tem que ser própria, reinventada e “mudernizada” a cada geração, sem perder o fôlego de roça. Música, nem se fala. Ele tem um tipo tão forte e permanente que de tão seu, o resto do Brasil inteiro entendeu e resolveu cantar do seu jeito. O Forró é forró em qualquer lugar. E a gente dança tudo, do jeito que der. Gente autêntica de pé no chão. E digo isso como figura de linguagem, pois são todos calejados de ilusão. Sonham, claro, quem não sonha? Mas acostumados a madrugar para trabalhar, deixam o sonho só para sonhar mesmo. Atuam, diariamente, atuam. Fingem não sentir dor, imitam o forte. E tomam as rédeas da vida. Traçam o caminho. Nenhum caminho os levam desavisadamente. Fazem escolhas marcadas, avisadas e arcam com todas as consequências. Todas. Boas e ruins. Principalmente as ruins. Porque a vida não tem que ser só boa não. Ela não pode ser só boa não. Eles têm autêntica atitude diante da vida que é dura e boa demais.

O Cearense tem graça. É como eles amolecem a dureza da vida. Um povo pra lá de descontraído. Todas as pessoas mais engraçadas que já conhecei são Cearenses. A graça tá na careta, no modo de dizer, na safadeza descarada, no jeitão cheio de propriedade de ser misturado com palhaçada escancarada, teatral, circense. É graça leve mesmo, não agride ninguém, não humilha, e não há quem se sinta ofendido, muito embora não tenha nenhum que escape das garras afiadas desse humor. Têm a graça da simplicidade faceira. Gente cheia de ideias para redescobrir o velho, reutilizar o que têm, inventar moda. Povo com a graça da bondade, da compaixão, do sorriso no rosto, sempre. A graça do anfitrião, aquele que se desdobra para receber bem, fazer sentir bem, à vontade, em casa. A importância de se sentir em casa, como um Cearense sente no Ceará. E não é pela terra não, é pela gente.

Eu conheço quem tenha atitude, conheço quem tenha graça, mas tanta força e beleza num só, só Cearense.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Minhas cores saudades

                      Alexa Meade

Qual minha cor? Branca. Muito embora eu seja colorida. Meu branco é de verdade e nascença. Meu colorido é que é meu mesmo. Acontece que ao contrário do branco experimentado, não sou branco que reflete todas as cores não. Eu sou branco que transparece todas as cores. As coisas da vida me pintam de cor pra quem me sente.

Eu tenho muitas saudades, e saudade é multicor. Tem saudade escura e clara. A saudade do que já morreu é preta. E à medida que você tem esperança de que não tenha morrido ou que nunca vai morrer ela vai ficando mais clara, passando pelo vermelho, azul e amarelo.

Eu tenho amores que morreram dentro de mim. E como é engraçado perceber que eles morreram.... Sentimentos que foram tão intensos, tão vivos, na verdade morrem em paz. Às vezes encontrei com ex-amores e balancei, senti uma mistura de medo com vontade e esperança, aquela saudade era vermelha, dolorida, encarnada, viscosa. Com o tempo esses mesmos ex-amores tornaram-se cada vez mais escuros. Alguns levaram mais, outros menos tempo, mas para todos eles, eu pinto agora a cor cinza escuro, próximo de preto. Essas cores se tornam evidentes quando você discute assuntos importantes e suas opiniões divergem longe, por exemplo, o país que mais se quer visitar, a sua posição política, a cidade onde se quer morar, ou simplesmente o estilo de vida. Mas não pense que o preto é feio. Não, acho lindo, uma das minhas cores favoritas.

Mas eu também tenho amores muito vivos em mim. Esses dão saudades as mais coloridas e berrantes.

Tem amor que eu teimo em manter vivo por contrariedade. Esse é azul escuro, triste, lamentado, chorado. Esse é um amor estranhíssimo. Um amor que dura agora 14 anos, metade da minha vida. Um amor que de tão longo, tão grande e tão enraizado, eu nunca pensei que pudesse acabar ou morrer. É o amor mais difícil de descrever. Um amor que uma vez acreditamos tanto que nunca havia de acabar, pois achamos que tomamos à dois a decisão mais perfeita para manutenção desse amor. Manter distância. Imagino o estranhamento de quem me lê, mas é assim mesmo que fazia sentido, já que somos pessoas diferentes e ambiciosas. Então ele nunca acabaria, porque a matemática era exata. O amor era grande o suficiente pra sobreviver qualquer tempo, qualquer distância, e esse tempo e essa distância eram fundamentais pra mantê-lo intacto. Porque na verdade, nunca tivemos tanta certeza do amor como quando estávamos longe, e o tempo junto era pequeno o bastante pra mantê-lo encantado. Acreditamos nisso até o fim. E o fim chegou surpreendente. Depois do maior tempo e maior distância que já tinhamos experimentado, percebemos que o elástico que nos unia estava gasto e frouxo. Talvez esquecemos que se puxamos demais o elástico ele cede, e nunca mais une as pontas. Mas eu ainda teimo em achar que há reparo, que o elástico pode ser trocado, retocado. Fico pintando o azul de claro esperançoso, incansável.

Outras saudades são de momentos que não voltam mais. Algumas são róseas, lilás, verdes, outras são mais em tons de begue, marrom. As primeiras pintam momentos felizes e belos que fizeram parte do que eu sou hoje, e eu os guardo feito obras de arte. Sorrisos, abraços, palavras, lágrimas, momentos preciosos que mantenho consciente ou inconscientemente fazendo parte de mim. Que vêm à tona em atitudes, expressões e opiniões de agora. Os outros menos coloridos retratam saudades mais recentes de coisas que eu gostaria que fossem como antes, mas não são. Esta é a maior das minhas coleções de saudades. São amizades que se perdem ou mudaram de forma ou brilho. São paixões, vocações, vontades que se diluem, são gostos que se esquecem, são certezas que fogem.

E finalmente existem saudades muito estranhas, no geral amarelas ou laranjas, de coisas que ainda não vivi, apenas planejo, almejo e espero, porém às vezes duvido, às vezes imploro. São saudades do “como seria”, o gosto do “e se”, a cor do “ai como eu queria”. O desejo de viver aquele amor, de ter liberdade para fazer, tempo para me dedicar, a pretenção de ser e estar.



Minhas cores transbordam minha pele branca que, com olhos fechados, é possível ver ao sentir.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Revolução Íntima

Fui andando dos Arcos da Lapa até a Cinelândia, e de lá caminhei pela Rio Branco até encontrar a manifestação que já havia saído da concentração na Candelária e vinha na minha direção, depois da Rua do Rosário. Eram umas 17:30, acredito eu, que sem relógio, seguia a risca a cartilha de guerrilha, deixando no trabalho quase todos os meus pertences. Sim, eu não estava alí por acaso. Eu havia acompanhado os acontecimentos dos últimos dias extremamente atenta. Pensei sobre tudo e percebi ali uma oportunidade única de revolução. Por isso me preparei para o que eu haveria de enfrentar numa revolução. Havia lido e relido uma cartilha de guerrilha que explicava como eu devia me comportar em caso de explosões de bomba de efeito moral, gás lacrimogêneo, caso entrasse em contato com “spray” de pimenta, que tipo de roupa deveria usar, o que eu deveria ter em mãos e também o que não deveria ter, relógio bonito estava fora. Eu estava vestida para guerra e com o coração amedrontado mas preparado. Eu vestia uma blusa de tecido sintético, e um casaco impermeável, ambos impdiam a adesão do gás lacrimogêneo, tinha um cachecol de algodão, que serviria para cobrir meu rosto caso necessário, calça jeans, tênis confortável, documento, dinheiro e uma garrafa de vinagre na cintura, amônia necessária para neutralizar os ácidos das armas brancas que meus rivais, os policiais da tropa de choque, usariam para me fazer parar a marcha. Eu estava preparada para o enfrentamento, para seguir passeata atenta às saídas de emergência, caso eu precisasse correr.
Antes de ver o protesto em si, pude ouvi-lo e fiquei arrepiada! Eu não distinguia as palavras mas eram gritos graves de uma multidão. Eu me emocionava cada vez mais a cada passo. Fui chegando e vendo muita gente, subindo a rua em passos curtos e coordenados, pareciam todos muito focados, pareciam um organismo só. Os primeiros gritos que consegui distinguir foram “Ei, Cabral, vai tomar no cu” e “Olê, olê, olê olá, se a passagem não abaixar o Rio, o Rio, o Rio vai parar!” Era contagiante! Logo me juntei ao movimento do organismo que era um todo, um gigante, enorme, pulsante e vivo. Eu não conseguia tirar do rosto um sorriso feliz. Meio bobo talvez. Eu estava agradavelmente surpresa e enfeitiçada pela beleza de ser uma célula, uma parte, um tijolo. Eu nunca estive ali. Nunca ví algo tão forte, imponente e bonito. Lembrei que já estive naquela mesma rua, unida a milhares num bloco de carnaval, e apesar da lembrança eu podia sentir que aquilo era algo muito diferente. Empulsionada pela minha amiga, velha de guerra, experiente em passeatas e protestos, fomos para perto do carro de som. Eu ouvia “Vem, vem, vem pra rua, vem \ contra o aumento” “Eu, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooor” “ô motorista, ô trocador, me diz aí se seu salário aumentou” “A Rio Branco é nossa, rara ruru” “Fora Cabral, Fora Cabral” “ôôô Cabral é ditador, Cabral é ditador, Cabral é ditadoooor” tudo nessa ordem. Até aí eu estava achando tudo lindo. Foi então que começaram as estranhezas. Ouvi alguém atrás de mim gritar para alguém na frente “abaixa essa bandeira ai!” foi quando começaram todos em coro “Sem partido! Sem partido” depois, “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” (sim é verdade, mas isso também entra? Não sabia, mas tudo bem) e finalmente “o povo unido não precisa de partido”. Nesse ponto eu não estava entendendo mais nada. Para mim, partidos são extremamente importantes e precisamos deles para constituir uma democracia. Foi então que entendi que esse gigante acordado pouco se diferenciava de sonâmbulos em marcha. E tamanho foi meu susto e decepção. Caminhando pra onde? Por quê? Quantas ideologias? Quanta heterogeneidade! E se assim o era, por que não levantar bandeiras de partidos? Era um movimento por todos ou por ninguém? Minha cabeça deu um nó. Continuei caminhando. Mantive meu foco. Eu estava ali pela diminuição das tarifas de transporte público, mas isso não era tudo. No entanto, aquela massa dizia muitas coisas diferentes e entre elas que eu não podia reivindicar tudo o que eu pensasse ou quisesse. Ainda atordoada, segui.

No dia seguinte eu estava muito confusa e triste pois, no dia anterior eu defendera aquele protesto com tanto amor, ele representava tanto para mim, um tanto imenso. Ele representava um enorme rompimento com a história de inércia, de fuga da política, de indiferença. Eu achei que fosse a grande aurora da juventude brasileira, achei que mudariamos o rumo do país de imediato, que tomaríamos o poder nas mãos, abriríamos canais de participação efetiva nas decisões políticas, que instituiríamos a total transparência monetária e ideológica, achei que, do dia para a noite, seríamos o que eu sonhei que seríamos. Ingênua, burra. De repente o que eu via era uma massa amorfa de tão dissonante e desconectada.
Mas calma, calma, não é porque a manifestação não é o que eu sonhei que ela fosse que ela deixa de ser realmente impactante e revolucionária. Só que a revolução é bem menor, é quase interior e introspectiva, mas não menos importante. Afinal, é a primeira vez que essas gerações experimentam tomar a rua. Somos todos aprendizes na arte de exercer cidadania responsável e atuante. Nunca experimentamos fazer do ato público autêntico nossa forma de expressão. Mas agora que eles viram que é possível, agora que eles mediram suas forças, conheceram seu potencial e aprenderam que podem fazer política e que tudo é política, quem sabe isso já não é a semente de uma grande revolução transformando o tipo de cidadão que ocupa o Brasil.


Sabe, acredito (preciso acreditar) que tem muito mais gente contaminada pelo bichinho da revolução, se alimentando de informação, de crítica, de ideologia política. Deve ter muita gente se preocupando em se posicionar politicamente, pensando pela primera vez ou mais profundamente no que quer e em quem lhes representa. Gente querendo saber o que é a PEC 37, PEC 33, reforma política. E se assim for, é válido e lindo. Mas insisto que precisamos correr pela nossa (r)evolução, pois agora temos que encarar o estatuto do nascituro, o Feliciano e a cura gay e os danos da copa.