segunda-feira, 24 de junho de 2013

Minhas cores saudades

                      Alexa Meade

Qual minha cor? Branca. Muito embora eu seja colorida. Meu branco é de verdade e nascença. Meu colorido é que é meu mesmo. Acontece que ao contrário do branco experimentado, não sou branco que reflete todas as cores não. Eu sou branco que transparece todas as cores. As coisas da vida me pintam de cor pra quem me sente.

Eu tenho muitas saudades, e saudade é multicor. Tem saudade escura e clara. A saudade do que já morreu é preta. E à medida que você tem esperança de que não tenha morrido ou que nunca vai morrer ela vai ficando mais clara, passando pelo vermelho, azul e amarelo.

Eu tenho amores que morreram dentro de mim. E como é engraçado perceber que eles morreram.... Sentimentos que foram tão intensos, tão vivos, na verdade morrem em paz. Às vezes encontrei com ex-amores e balancei, senti uma mistura de medo com vontade e esperança, aquela saudade era vermelha, dolorida, encarnada, viscosa. Com o tempo esses mesmos ex-amores tornaram-se cada vez mais escuros. Alguns levaram mais, outros menos tempo, mas para todos eles, eu pinto agora a cor cinza escuro, próximo de preto. Essas cores se tornam evidentes quando você discute assuntos importantes e suas opiniões divergem longe, por exemplo, o país que mais se quer visitar, a sua posição política, a cidade onde se quer morar, ou simplesmente o estilo de vida. Mas não pense que o preto é feio. Não, acho lindo, uma das minhas cores favoritas.

Mas eu também tenho amores muito vivos em mim. Esses dão saudades as mais coloridas e berrantes.

Tem amor que eu teimo em manter vivo por contrariedade. Esse é azul escuro, triste, lamentado, chorado. Esse é um amor estranhíssimo. Um amor que dura agora 14 anos, metade da minha vida. Um amor que de tão longo, tão grande e tão enraizado, eu nunca pensei que pudesse acabar ou morrer. É o amor mais difícil de descrever. Um amor que uma vez acreditamos tanto que nunca havia de acabar, pois achamos que tomamos à dois a decisão mais perfeita para manutenção desse amor. Manter distância. Imagino o estranhamento de quem me lê, mas é assim mesmo que fazia sentido, já que somos pessoas diferentes e ambiciosas. Então ele nunca acabaria, porque a matemática era exata. O amor era grande o suficiente pra sobreviver qualquer tempo, qualquer distância, e esse tempo e essa distância eram fundamentais pra mantê-lo intacto. Porque na verdade, nunca tivemos tanta certeza do amor como quando estávamos longe, e o tempo junto era pequeno o bastante pra mantê-lo encantado. Acreditamos nisso até o fim. E o fim chegou surpreendente. Depois do maior tempo e maior distância que já tinhamos experimentado, percebemos que o elástico que nos unia estava gasto e frouxo. Talvez esquecemos que se puxamos demais o elástico ele cede, e nunca mais une as pontas. Mas eu ainda teimo em achar que há reparo, que o elástico pode ser trocado, retocado. Fico pintando o azul de claro esperançoso, incansável.

Outras saudades são de momentos que não voltam mais. Algumas são róseas, lilás, verdes, outras são mais em tons de begue, marrom. As primeiras pintam momentos felizes e belos que fizeram parte do que eu sou hoje, e eu os guardo feito obras de arte. Sorrisos, abraços, palavras, lágrimas, momentos preciosos que mantenho consciente ou inconscientemente fazendo parte de mim. Que vêm à tona em atitudes, expressões e opiniões de agora. Os outros menos coloridos retratam saudades mais recentes de coisas que eu gostaria que fossem como antes, mas não são. Esta é a maior das minhas coleções de saudades. São amizades que se perdem ou mudaram de forma ou brilho. São paixões, vocações, vontades que se diluem, são gostos que se esquecem, são certezas que fogem.

E finalmente existem saudades muito estranhas, no geral amarelas ou laranjas, de coisas que ainda não vivi, apenas planejo, almejo e espero, porém às vezes duvido, às vezes imploro. São saudades do “como seria”, o gosto do “e se”, a cor do “ai como eu queria”. O desejo de viver aquele amor, de ter liberdade para fazer, tempo para me dedicar, a pretenção de ser e estar.



Minhas cores transbordam minha pele branca que, com olhos fechados, é possível ver ao sentir.

3 comentários:

  1. Se meter com cor é sempre um perigo.

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  2. Adorei a "espectroscopia" aliada ao que vc sente, aliada à saudade e outros.

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  3. E gostei do blog! Vou colocar um link pra ele no meu=)

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