quarta-feira, 19 de junho de 2013

Revolução Íntima

Fui andando dos Arcos da Lapa até a Cinelândia, e de lá caminhei pela Rio Branco até encontrar a manifestação que já havia saído da concentração na Candelária e vinha na minha direção, depois da Rua do Rosário. Eram umas 17:30, acredito eu, que sem relógio, seguia a risca a cartilha de guerrilha, deixando no trabalho quase todos os meus pertences. Sim, eu não estava alí por acaso. Eu havia acompanhado os acontecimentos dos últimos dias extremamente atenta. Pensei sobre tudo e percebi ali uma oportunidade única de revolução. Por isso me preparei para o que eu haveria de enfrentar numa revolução. Havia lido e relido uma cartilha de guerrilha que explicava como eu devia me comportar em caso de explosões de bomba de efeito moral, gás lacrimogêneo, caso entrasse em contato com “spray” de pimenta, que tipo de roupa deveria usar, o que eu deveria ter em mãos e também o que não deveria ter, relógio bonito estava fora. Eu estava vestida para guerra e com o coração amedrontado mas preparado. Eu vestia uma blusa de tecido sintético, e um casaco impermeável, ambos impdiam a adesão do gás lacrimogêneo, tinha um cachecol de algodão, que serviria para cobrir meu rosto caso necessário, calça jeans, tênis confortável, documento, dinheiro e uma garrafa de vinagre na cintura, amônia necessária para neutralizar os ácidos das armas brancas que meus rivais, os policiais da tropa de choque, usariam para me fazer parar a marcha. Eu estava preparada para o enfrentamento, para seguir passeata atenta às saídas de emergência, caso eu precisasse correr.
Antes de ver o protesto em si, pude ouvi-lo e fiquei arrepiada! Eu não distinguia as palavras mas eram gritos graves de uma multidão. Eu me emocionava cada vez mais a cada passo. Fui chegando e vendo muita gente, subindo a rua em passos curtos e coordenados, pareciam todos muito focados, pareciam um organismo só. Os primeiros gritos que consegui distinguir foram “Ei, Cabral, vai tomar no cu” e “Olê, olê, olê olá, se a passagem não abaixar o Rio, o Rio, o Rio vai parar!” Era contagiante! Logo me juntei ao movimento do organismo que era um todo, um gigante, enorme, pulsante e vivo. Eu não conseguia tirar do rosto um sorriso feliz. Meio bobo talvez. Eu estava agradavelmente surpresa e enfeitiçada pela beleza de ser uma célula, uma parte, um tijolo. Eu nunca estive ali. Nunca ví algo tão forte, imponente e bonito. Lembrei que já estive naquela mesma rua, unida a milhares num bloco de carnaval, e apesar da lembrança eu podia sentir que aquilo era algo muito diferente. Empulsionada pela minha amiga, velha de guerra, experiente em passeatas e protestos, fomos para perto do carro de som. Eu ouvia “Vem, vem, vem pra rua, vem \ contra o aumento” “Eu, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooor” “ô motorista, ô trocador, me diz aí se seu salário aumentou” “A Rio Branco é nossa, rara ruru” “Fora Cabral, Fora Cabral” “ôôô Cabral é ditador, Cabral é ditador, Cabral é ditadoooor” tudo nessa ordem. Até aí eu estava achando tudo lindo. Foi então que começaram as estranhezas. Ouvi alguém atrás de mim gritar para alguém na frente “abaixa essa bandeira ai!” foi quando começaram todos em coro “Sem partido! Sem partido” depois, “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” (sim é verdade, mas isso também entra? Não sabia, mas tudo bem) e finalmente “o povo unido não precisa de partido”. Nesse ponto eu não estava entendendo mais nada. Para mim, partidos são extremamente importantes e precisamos deles para constituir uma democracia. Foi então que entendi que esse gigante acordado pouco se diferenciava de sonâmbulos em marcha. E tamanho foi meu susto e decepção. Caminhando pra onde? Por quê? Quantas ideologias? Quanta heterogeneidade! E se assim o era, por que não levantar bandeiras de partidos? Era um movimento por todos ou por ninguém? Minha cabeça deu um nó. Continuei caminhando. Mantive meu foco. Eu estava ali pela diminuição das tarifas de transporte público, mas isso não era tudo. No entanto, aquela massa dizia muitas coisas diferentes e entre elas que eu não podia reivindicar tudo o que eu pensasse ou quisesse. Ainda atordoada, segui.

No dia seguinte eu estava muito confusa e triste pois, no dia anterior eu defendera aquele protesto com tanto amor, ele representava tanto para mim, um tanto imenso. Ele representava um enorme rompimento com a história de inércia, de fuga da política, de indiferença. Eu achei que fosse a grande aurora da juventude brasileira, achei que mudariamos o rumo do país de imediato, que tomaríamos o poder nas mãos, abriríamos canais de participação efetiva nas decisões políticas, que instituiríamos a total transparência monetária e ideológica, achei que, do dia para a noite, seríamos o que eu sonhei que seríamos. Ingênua, burra. De repente o que eu via era uma massa amorfa de tão dissonante e desconectada.
Mas calma, calma, não é porque a manifestação não é o que eu sonhei que ela fosse que ela deixa de ser realmente impactante e revolucionária. Só que a revolução é bem menor, é quase interior e introspectiva, mas não menos importante. Afinal, é a primeira vez que essas gerações experimentam tomar a rua. Somos todos aprendizes na arte de exercer cidadania responsável e atuante. Nunca experimentamos fazer do ato público autêntico nossa forma de expressão. Mas agora que eles viram que é possível, agora que eles mediram suas forças, conheceram seu potencial e aprenderam que podem fazer política e que tudo é política, quem sabe isso já não é a semente de uma grande revolução transformando o tipo de cidadão que ocupa o Brasil.


Sabe, acredito (preciso acreditar) que tem muito mais gente contaminada pelo bichinho da revolução, se alimentando de informação, de crítica, de ideologia política. Deve ter muita gente se preocupando em se posicionar politicamente, pensando pela primera vez ou mais profundamente no que quer e em quem lhes representa. Gente querendo saber o que é a PEC 37, PEC 33, reforma política. E se assim for, é válido e lindo. Mas insisto que precisamos correr pela nossa (r)evolução, pois agora temos que encarar o estatuto do nascituro, o Feliciano e a cura gay e os danos da copa.

4 comentários:

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  2. E hoje? O que te (nos) trouxe a segunda experiência?

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    1. Foi lindo ver 600.000 pessoas na rua, porque eramos um corpo só, mas todo colorido. Todas as classes, idades e cores. A parte feia foi ver todos sendo violentamente proibidos de protestar pacificamente. Todas as classes, idades e cores.

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  3. Lindo texto Ju... e concordo com você, é válido e lindo! O país deu o ponta pé inicial, ainda temos um longo caminho pela frente...

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