terça-feira, 2 de julho de 2013

Atitude e graça



Atitude e graça são duas qualidades inerentes ao Cearense. “É cabra da peste sim senhor.” Uma gente simples que transborda requinte e bom gosto. Tão humildes que sobram em sabedora. Um povo profundo e livre, demasiado livre.

O Cearense tem atitude, ele não sabe não ter. Ele é o que é, goste ou não goste. É “arretado” mesmo. Fala o que pensa do jeito que sabe. E como sabe... Povo trabalhador, não teme o sol nem o suor. Do mais pobre ao mais rico, você há de escutar “o trabalho enobrece o homem”. Tem horror a vagabundagem, a malemolência, ao ócio. Tem pavor do espertalhão que só quer se dar bem. Ninguém “só se dá bem”. Só se colhe o que se planta. “Tem que honrar as calças que ti vestem, homi.” Tem que honrar, fazer por merecer. É assim que é. Se você é estudante, sua responsabilidade é cumprir horários de estudos, tirar notas boas, se esforçar ao máximo. Você não tem que ser o melhor da turma, não tem que se destacar, mas tem que merecer o livro que lê, a roupa que veste, o almoço que come e a cama que dorme, era o que meu pai dizia e minha mãe apoiava. Se é trabalhador então, nem preciso falar. Tem que atuar, não pode passar batido. Pode fazer o mesmo que mil pessoas, mas tem que ter a sua assinatura em algum lugar. O Cearense é único. Sua atitude está em tudo. No seu jeito de vestir, de andar, de comer, de falar, de namorar, de cantar e dançar. Dispensam até o português. Língua para eles tem que ser própria, reinventada e “mudernizada” a cada geração, sem perder o fôlego de roça. Música, nem se fala. Ele tem um tipo tão forte e permanente que de tão seu, o resto do Brasil inteiro entendeu e resolveu cantar do seu jeito. O Forró é forró em qualquer lugar. E a gente dança tudo, do jeito que der. Gente autêntica de pé no chão. E digo isso como figura de linguagem, pois são todos calejados de ilusão. Sonham, claro, quem não sonha? Mas acostumados a madrugar para trabalhar, deixam o sonho só para sonhar mesmo. Atuam, diariamente, atuam. Fingem não sentir dor, imitam o forte. E tomam as rédeas da vida. Traçam o caminho. Nenhum caminho os levam desavisadamente. Fazem escolhas marcadas, avisadas e arcam com todas as consequências. Todas. Boas e ruins. Principalmente as ruins. Porque a vida não tem que ser só boa não. Ela não pode ser só boa não. Eles têm autêntica atitude diante da vida que é dura e boa demais.

O Cearense tem graça. É como eles amolecem a dureza da vida. Um povo pra lá de descontraído. Todas as pessoas mais engraçadas que já conhecei são Cearenses. A graça tá na careta, no modo de dizer, na safadeza descarada, no jeitão cheio de propriedade de ser misturado com palhaçada escancarada, teatral, circense. É graça leve mesmo, não agride ninguém, não humilha, e não há quem se sinta ofendido, muito embora não tenha nenhum que escape das garras afiadas desse humor. Têm a graça da simplicidade faceira. Gente cheia de ideias para redescobrir o velho, reutilizar o que têm, inventar moda. Povo com a graça da bondade, da compaixão, do sorriso no rosto, sempre. A graça do anfitrião, aquele que se desdobra para receber bem, fazer sentir bem, à vontade, em casa. A importância de se sentir em casa, como um Cearense sente no Ceará. E não é pela terra não, é pela gente.

Eu conheço quem tenha atitude, conheço quem tenha graça, mas tanta força e beleza num só, só Cearense.


Um comentário: