Chuva
fina
Rain Princess (Leonid Afremov)
Depois
que compramos os ingressos do filme, uma amostra do festival de
cinema da cidade, fomos para o bar, dentro do complexo do cinema,
esperar uma horinha. O lugar era bem escuro em tons de azul e preto,
praticamente não havia luz sobre nossas cabeças, apenas nas velas
elétricas sobre as mesas, um painel azul no bar, e os reflexos de
vários espelhos. Sentamos e pedimos duas cervejas, quaisquer, pois
era a única bebida que existia e era sempre boa. Para mim a cidade
era mágica e flutuava sobre o mapa de forma que não poderia saber
ao certo minha localização. Eu flutuava. Lá vivíamos vidas
paralelas às reais, já que nada ali era nosso. Lá as vidas
costumavam durar apenas um ano, depois disso, acabavam simplesmente,
despareciam. Conversamos como dois velhos amigos que se amam e se
conhecem bem. Estranhamente não faltara assunto, muito embora tudo
que mais queríamos dizer não era expresso por nenhuma daquelas
palavras, contudo, não havia também nada escondido, tudo estava
declarado, descaradamente, e tudo se lia nos nossos olhares, sorrisos
e entrelinhas, muitas entrelinhas e borboletas na barriga, o que
causava um desconforto bom. Isso dava aos outros, ao nosso redor, uma
imagem a ser interpretada, já que era comum que ali, cada pessoa
falasse uma língua diferente e pessoal, que não era entendida por
nós, e vice-versa. Logo, ninguém entenderia nenhuma palavra do que
dissemos, mas entrelinhas podem ser lidas por qualquer um,
independente do idioma. A verdade é que pouco nos importavam os
outros, qualquer outro, durante toda aquela vida. O tempo passava
rápido, quase uma hora e a garrafa ainda meio cheia, perdia das
palavras a competição pela boca. Era arrasadora a sensação de
perceber o tempo
passar. O que ainda nos confortava era saber que pelos próximos
minutos estaríamos sentados lado a lado, de mãos dadas. Ao sair,
notaríamos que o céu encoberto, sem lua nem estrelas, guardou uma
chuva fina, completamente invisível e pouco perceptível
(entrelinha), porém concreta e constante (palavra na linha), para
nos lembrar que assim também seria nosso amor, até o fim dele.

a vida é feita de momentos... nada mais.
ResponderExcluirJuli, muito bons os seus textos. Espero que continue escrevendo e tendo mais inspirações para releituras da vida. Bjos!
ResponderExcluirLindo Ju!!
ResponderExcluirMuito bom, Ju. Me lembrou um livro: "O poder do agora" (E. Tolle)
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