segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Chuva fina

Chuva fina


Rain Princess (Leonid Afremov)


Depois que compramos os ingressos do filme, uma amostra do festival de cinema da cidade, fomos para o bar, dentro do complexo do cinema, esperar uma horinha. O lugar era bem escuro em tons de azul e preto, praticamente não havia luz sobre nossas cabeças, apenas nas velas elétricas sobre as mesas, um painel azul no bar, e os reflexos de vários espelhos. Sentamos e pedimos duas cervejas, quaisquer, pois era a única bebida que existia e era sempre boa. Para mim a cidade era mágica e flutuava sobre o mapa de forma que não poderia saber ao certo minha localização. Eu flutuava. Lá vivíamos vidas paralelas às reais, já que nada ali era nosso. Lá as vidas costumavam durar apenas um ano, depois disso, acabavam simplesmente, despareciam. Conversamos como dois velhos amigos que se amam e se conhecem bem. Estranhamente não faltara assunto, muito embora tudo que mais queríamos dizer não era expresso por nenhuma daquelas palavras, contudo, não havia também nada escondido, tudo estava declarado, descaradamente, e tudo se lia nos nossos olhares, sorrisos e entrelinhas, muitas entrelinhas e borboletas na barriga, o que causava um desconforto bom. Isso dava aos outros, ao nosso redor, uma imagem a ser interpretada, já que era comum que ali, cada pessoa falasse uma língua diferente e pessoal, que não era entendida por nós, e vice-versa. Logo, ninguém entenderia nenhuma palavra do que dissemos, mas entrelinhas podem ser lidas por qualquer um, independente do idioma. A verdade é que pouco nos importavam os outros, qualquer outro, durante toda aquela vida. O tempo passava rápido, quase uma hora e a garrafa ainda meio cheia, perdia das palavras a competição pela boca. Era arrasadora a sensação de perceber o tempo passar. O que ainda nos confortava era saber que pelos próximos minutos estaríamos sentados lado a lado, de mãos dadas. Ao sair, notaríamos que o céu encoberto, sem lua nem estrelas, guardou uma chuva fina, completamente invisível e pouco perceptível (entrelinha), porém concreta e constante (palavra na linha), para nos lembrar que assim também seria nosso amor, até o fim dele.

4 comentários:

  1. Juli, muito bons os seus textos. Espero que continue escrevendo e tendo mais inspirações para releituras da vida. Bjos!

    ResponderExcluir
  2. Muito bom, Ju. Me lembrou um livro: "O poder do agora" (E. Tolle)

    ResponderExcluir