domingo, 9 de março de 2014

O homem solitário

                             
Fotografia de Tito Casal - Fotografia integra o livro "Agua e as artes visuais na Bahia" de Matilde Matos

Texto de Paulo de Faria Pinho, publicado em http://www.kbrdigital.com.br, em 08 de março de 2014

Estou me tornando um cronista da solidão, o que vai acabar definitivamente com a paciência dos que ainda têm paciência para lerem meus textos. Começo pensando em escrever um texto falando do mar, espelho de todas as cores do céu, do quebrar das ondas, e lembro-me da figura do pescador de beira de praia, aquele que fica na areia molhada com um caniço, um pequeno molinete, uma bolsa onde guarda alguma coisa para beber e suas iscas. Atira sua isca com um movimento de enorme plasticidade e ela volta, quase sempre, sem peixe algum. Ele, com toda a paciência que o mundo lhe deu, vai até sua bolsa, coloca outra isca e repete tudo, e nada, rigorosamente nada de novo ocorre. No seu ato de pensar que pesca, está absolutamente solitário. E assim, sem ser convidado, o pescador entrou na minha crônica sobre o mar, esparramou sua solidão e a transformou em mais uma crônica solitária. Vocês podem notar que bem que tentei fazer uma crônica sem solidão, mas o maldito pescador acabou com meu sonho ao colocar nela sua triste realidade, ou sua solitária realidade.

Vou mudar de assunto, como se escrever fosse chamar um táxi que passa e que você nunca sabe se está vazio ou não, porque apesar de lei recente todos continuam usando vidros escuros que não os protege de nada, não protege o passageiro e ainda o deixa sem saber se estica o braço ou não. O táxi estava vazio, e entrei. Algumas vezes o motorista lhe dá um bom dia, ou boa tarde, depende da hora em que você adentrou o veículo. E fica o maior silêncio, porque alguns deles consideram que não devem começar um diálogo, o que seria invadir o direito do passageiro de estar quieto, direito aumentado pelo fato de ser ele, o passageiro, quem está pagando a corrida. Mas se você começar uma conversa, verá que, se ele não falar mal do trânsito, vai contar uma história triste sobre o que é a vida de rodar horas e horas por esta cidade sem lei, sem coração e sem dignidade. Vai falar de um assalto que sofreu, do tempo da vida que perde parado em um infernal engarrafamento, da saudade que sente de casa, onde chega sempre tarde, restando-lhe pouco tempo para se dedicar aos filhos e à mulher —passaram a ser apêndices de sua vida de motorista solitário, este que, mais uma vez, sem que lhe fosse dada qualquer autorização, ingressou na minha crônica, que deveria ter começado falando mais ou menos assim: “Saí de casa e peguei um táxi para ir me encontrar com uma amiga querida”. E a crônica que não era para ter nada de solitária acabaria assim ficando por culpa única e exclusiva de um motorista simpático e educado. E profundamente solitário.

Salto de táxi dizendo que mudara de ideia, que não mais iria ao encontro; e quando meus pés tocam a calçada descubro que escapei por pouco de começar uma crônica solitária.

Entro em um bar que frequento há mais de quarenta anos, aqui no Leblon, e converso rapidamente com os garçons — todos me conhecem, assim como o encarregado de tirar os chopes e o homem da caixa. Sento-me na minha mesa preferida, não sem antes ligar para minha amiga e inventar uma história de que não me senti bem e voltei para casa. Se contasse que pulei fora de um táxi porque o motorista me levou a um estado de solidão, ela começaria a ficar preocupada com o meu atual estado mental, o que não é saudável nem para ela nem para mim.

Eis que me encontro, única e exclusivamente por culpa, primeiro de um pescador e depois de um motorista solitário, sentado sozinho em um bar, onde outros homens solitários se encontram — afinal, são quatro e meia da tarde de uma quinta-feira e não é hora de almoços familiares, nem de confraternizações e nem de negócios. É a hora preferida dos velhos boêmios solitários, no meio dos quais me encontro, sem ter pedido para ali estar, diante de uma garrafa de vinho tinto — prometi que pediria meia, mas meia é pouco; para curar esta enorme solidão que se instalou em mim, nada menos que uma garrafa, tenho certeza, conseguirá dar conta do recado.

O vizinho do lado, um senhor simpático, cujo nome não sei, mas que conheço de vista, aqui mesmo deste bar, me pergunta sobre a procedência do vinho. Digo que é espanhol, da região de Rioja, e começamos a conversar sem que a intenção fosse esta. Convidou-me para com ele me sentar, o que seria mais inteligente do que ficarmos falando enviesados. E assim foi feito; nos apresentamos, ele também disse que me conhecia de vista, do mesmo bar que ele também frequenta há tanto tempo quanto eu.

Falamos um pouco da vida, ele mais do que eu, preferi escutar para ver se surgiria algum assunto para uma crônica que não fosse a solidão. Mas meu companheiro de mesa e copo era um homem profundamente solitário. Quase todas as tardes, depois da sesta, tomava um banho e se dirigia ao bar de sempre, procurava se sentar na mesma mesa, pedia uma dose de uísque — sua bebida não era o vinho; salvo durante uma refeição mais copiosa, era amigo dos destilados. Como todo boêmio que se preza e que tem caráter, não ficava nunca na primeira dose, o que seria algo inaceitável em um bar de homens solitários. E deixava o tempo passar, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Se surgisse a possibilidade de uma conversa, como a que estávamos tendo agora, melhor ainda, caso contrário ele povoava seu imaginário de lembranças e saudades.

Conversamos durante uma hora, tempo que ele levou para tomar mais três uísques e eu para acabar com minha garrafa de Rioja. Era engenheiro de minas, trabalhara muito, não só no Brasil, mas em outros países da América Latina, principalmente no Chile, onde vivera durante cinco anos. Viúvo, tinha dois filhos. O mais velho era diplomata e estava no presente momento em Viena; a mais nova, advogada, trabalhava em um grande escritório em São Paulo, e ele vivia assim, sozinho, no mesmo bairro em que moro, e frequenta o mesmo bar que eu.

Pagas as contas, apertadas as mãos, saímos juntos. Na porta ele virou à esquerda, enquanto eu seguia para a direita. E acabei sem assunto para a crônica, porque não iria escrever sobre minas chilenas, nem sobre os netos do meu mais novo amigo de saudades. Solitariamente segui meu caminho em direção ao final do Leblon, enquanto ele, solitariamente, seguia o caminho oposto.
E vocês ainda querem que eu escreva uma crônica sem falar da solidão?