Fotografia de Tito Casal - Fotografia integra o livro "Agua e as artes visuais na
Bahia" de Matilde Matos
Texto de Paulo de Faria Pinho, publicado em http://www.kbrdigital.com.br, em 08 de março de 2014
Estou me tornando um cronista da solidão, o que vai acabar
definitivamente com a paciência dos que ainda têm paciência para lerem
meus textos. Começo pensando em escrever um texto falando do mar,
espelho de todas as cores do céu, do quebrar das ondas, e lembro-me da
figura do pescador de beira de praia, aquele que fica na areia molhada
com um caniço, um pequeno molinete, uma bolsa onde guarda alguma coisa
para beber e suas iscas. Atira sua isca com um movimento de enorme
plasticidade e ela volta, quase sempre, sem peixe algum. Ele, com toda a
paciência que o mundo lhe deu, vai até sua bolsa, coloca outra isca e
repete tudo, e nada, rigorosamente nada de novo ocorre. No seu ato de
pensar que pesca, está absolutamente solitário. E assim, sem ser
convidado, o pescador entrou na minha crônica sobre o mar, esparramou
sua solidão e a transformou em mais uma crônica solitária. Vocês podem
notar que bem que tentei fazer uma crônica sem solidão, mas o maldito
pescador acabou com meu sonho ao colocar nela sua triste realidade, ou
sua solitária realidade.
Vou mudar de assunto, como se escrever fosse chamar um táxi que passa
e que você nunca sabe se está vazio ou não, porque apesar de lei
recente todos continuam usando vidros escuros que não os protege de
nada, não protege o passageiro e ainda o deixa sem saber se estica o
braço ou não. O táxi estava vazio, e entrei. Algumas vezes o motorista
lhe dá um bom dia, ou boa tarde, depende da hora em que você adentrou o
veículo. E fica o maior silêncio, porque alguns deles consideram que não
devem começar um diálogo, o que seria invadir o direito do passageiro
de estar quieto, direito aumentado pelo fato de ser ele, o passageiro,
quem está pagando a corrida. Mas se você começar uma conversa, verá que,
se ele não falar mal do trânsito, vai contar uma história triste sobre o
que é a vida de rodar horas e horas por esta cidade sem lei, sem
coração e sem dignidade. Vai falar de um assalto que sofreu, do tempo da
vida que perde parado em um infernal engarrafamento, da saudade que
sente de casa, onde chega sempre tarde, restando-lhe pouco tempo para se
dedicar aos filhos e à mulher —passaram a ser apêndices de sua vida de
motorista solitário, este que, mais uma vez, sem que lhe fosse dada
qualquer autorização, ingressou na minha crônica, que deveria ter
começado falando mais ou menos assim: “Saí de casa e peguei um táxi para
ir me encontrar com uma amiga querida”. E a crônica que não era para
ter nada de solitária acabaria assim ficando por culpa única e exclusiva
de um motorista simpático e educado. E profundamente solitário.
Salto de táxi dizendo que mudara de ideia, que não mais iria ao
encontro; e quando meus pés tocam a calçada descubro que escapei por
pouco de começar uma crônica solitária.
Entro em um bar que frequento há mais de quarenta anos, aqui no
Leblon, e converso rapidamente com os garçons — todos me conhecem, assim
como o encarregado de tirar os chopes e o homem da caixa. Sento-me na
minha mesa preferida, não sem antes ligar para minha amiga e inventar
uma história de que não me senti bem e voltei para casa. Se contasse que
pulei fora de um táxi porque o motorista me levou a um estado de
solidão, ela começaria a ficar preocupada com o meu atual estado mental,
o que não é saudável nem para ela nem para mim.
Eis que me encontro, única e exclusivamente por culpa, primeiro de um
pescador e depois de um motorista solitário, sentado sozinho em um bar,
onde outros homens solitários se encontram — afinal, são quatro e meia
da tarde de uma quinta-feira e não é hora de almoços familiares, nem de
confraternizações e nem de negócios. É a hora preferida dos velhos
boêmios solitários, no meio dos quais me encontro, sem ter pedido para
ali estar, diante de uma garrafa de vinho tinto — prometi que pediria
meia, mas meia é pouco; para curar esta enorme solidão que se instalou
em mim, nada menos que uma garrafa, tenho certeza, conseguirá dar conta
do recado.
O vizinho do lado, um senhor simpático, cujo nome não sei, mas que
conheço de vista, aqui mesmo deste bar, me pergunta sobre a procedência
do vinho. Digo que é espanhol, da região de Rioja, e começamos a
conversar sem que a intenção fosse esta. Convidou-me para com ele me
sentar, o que seria mais inteligente do que ficarmos falando enviesados.
E assim foi feito; nos apresentamos, ele também disse que me conhecia
de vista, do mesmo bar que ele também frequenta há tanto tempo quanto
eu.
Falamos um pouco da vida, ele mais do que eu, preferi escutar para
ver se surgiria algum assunto para uma crônica que não fosse a solidão.
Mas meu companheiro de mesa e copo era um homem profundamente solitário.
Quase todas as tardes, depois da sesta, tomava um banho e se dirigia ao
bar de sempre, procurava se sentar na mesma mesa, pedia uma dose de
uísque — sua bebida não era o vinho; salvo durante uma refeição mais
copiosa, era amigo dos destilados. Como todo boêmio que se preza e que
tem caráter, não ficava nunca na primeira dose, o que seria algo
inaceitável em um bar de homens solitários. E deixava o tempo passar,
pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Se surgisse a possibilidade
de uma conversa, como a que estávamos tendo agora, melhor ainda, caso
contrário ele povoava seu imaginário de lembranças e saudades.
Conversamos durante uma hora, tempo que ele levou para tomar mais
três uísques e eu para acabar com minha garrafa de Rioja. Era engenheiro
de minas, trabalhara muito, não só no Brasil, mas em outros países da
América Latina, principalmente no Chile, onde vivera durante cinco anos.
Viúvo, tinha dois filhos. O mais velho era diplomata e estava no
presente momento em Viena; a mais nova, advogada, trabalhava em um
grande escritório em São Paulo, e ele vivia assim, sozinho, no mesmo
bairro em que moro, e frequenta o mesmo bar que eu.
Pagas as contas, apertadas as mãos, saímos juntos. Na porta ele virou
à esquerda, enquanto eu seguia para a direita. E acabei sem assunto
para a crônica, porque não iria escrever sobre minas chilenas, nem sobre
os netos do meu mais novo amigo de saudades. Solitariamente segui meu
caminho em direção ao final do Leblon, enquanto ele, solitariamente,
seguia o caminho oposto.
E vocês ainda querem que eu escreva uma crônica sem falar da solidão?