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Em 2002, quando fui à Europa
pela primeira vez, e era também a primeira vez que eu ia à qualquer outro país,
eu tinha 18 anos e muitas certezas e opiniões. Naquela época eu era
nacionalista, patriota, cheia de orgulho de ser brasileira e cheia de amor à
pátria. Eu arrepiava a espinha e cantava o hino aos berros, com a mão no peito,
olhos fechados, e nunca de outra maneira. Eu acreditava que aquele sentimento
fosse construção minha, mas não era. Eu era pequena mas fui às ruas vestindo
preto pedindo um "Fora Collor", depois disso me apaixonei pelo Lula,
nas eleições de 1998. Quando eu finalmente me tornei maior de idade, eu já
tinha ido várias vezes junto com meus pais, cumprir o dever cidadão de votar
(que cá entre nós, devia ser uma opção e não um dever), e eu a-do-ra-va! Mesmo
antes da maior idade fiz questão de tirar o título de eleitor, e aos 16
participei das urnas eletrônicas, votando em Inácio Arruda (posterior grande
decepção, que felizmente, apesar do meu voto, não ganhou as eleições). Na minha
breve vida até ali eu tinha desenvolvido pouco senso crítico, mas muito amor e
responsabilidade, profundo sentimento de pertencer a esquerda política e certeza do meu patriotismo. Bem, pois tudo
caiu por terra (com exceção do posicionamento político esquerdista agora menos
utópico), logo que refleti pela primeira vez no significado do patriotismo. Foi
na minha primeira viagem internacional, quando logo de cara, na chegada à
cidade de Lisboa, no táxi, no caminho do hotel, eu vi uma pichação num muro, que
dizia "Não sou patriota, minha nação é o mundo". Aquilo me marcou e
mudou para sempre.
O que significa ser patriota? O dicionário formal
explica que o termo vem do grego patriótes
(patrício), indivíduo ligado à pátria. O patriotismo é o sentimento de amor,
orgulho e devoção à pátria e seus símbolos (bandeira, hino, recursos materiais
e imateriais). No meu dicionário informal, o que eu percebi é que o patriotismo
emburrasse. O amor é incondicional. Mas não acho saudável amar
incondicionalmente uma pátria. Isso leva à excessos, como esconder problemas
sérios, mascarar defeitos, ou mesmo fechar os olhos para eles. Já ouvi gente
dizer assim "ah, você não pode apontar nossos defeitos, você nem é daqui!
Só eu posso falar mal do meu país". Ou sentimentos como "tá, aqui é
uma merda, mas é meu país, e eu o amo assim mesmo". Este é um sentimento
de aceitação e resignação muito prejudicial. O patriotismo não impulsiona o
patriota à querer e fazer mudanças. Outra coisa é esse sentimento de nação, de
pertencimento àquele chão, aos limites geográficos e a cultura imposta aos seus
indivíduos. Disso ninguém está livre. Todo mundo nasce em algum lugar, e sofre
profunda influência das pessoas ao redor. Mas, um indivíduo não precisa se
limitar a estas influências, pode procurar outras. Claro, que estas recebidas
nos primeiros anos de vida são muito fortes e você, como viajante, vai carregar
sua cultura onde quer que vá, mas a percepção de outros lugares, crenças e
culturas ajudam muito a perceber mazelas
do seu pequeno pedaço de chão. E uma vez viajante, aquele que realmente
se envolve com outras etnias não tem mais porquê dizer que pertence à um único
país, quando outras nações também lhe marcaram, lhe influenciaram e lhe
transformaram numa pessoa diferente. Dito tudo isso, afirmo que não sou
patriota e que minha nação é o mundo inteiro, ou pelo menos aquelas nações que
tive oportunidade de conhecer com o mínimo de profundidade.
Claro que esse assunto dá "muito pano pra
manga". Aqui entram muitas questões, por exemplo o patriotismo como ponto
de partida para impulsionar mudanças, que existe, não é só utopia. Outro
exemplo é ideia da nação como seu país de origem, uma afirmação lógica, formal
ou até mesmo lúdica, para quem olha pra isso de forma romântica, e insiste no
amor incondicional por suas raízes. Ou ainda a questão de que viajar, não é a
única forma de conhecer outras culturas e etnias. Eu mesma nunca fui à Nigéria
ou conheço com propriedade a cultura chinesa, mas tenho amigos com quem tenho
conversas tão substanciais, que, com eles aprendi novos olhares e compreendi um
pouco de seus pontos de vista, ângulos novos para mim. Não descarto outras
discussões, acho válidas. "Não sou patriota, minha nação é o mundo"
dá uma tese de doutorado. Aliás, é isso que tenho ir terminar agora, minha
tese. Mas como é difícil ter que pensar sobre uma coisa só, quando em uma
frase, se pode navegar um mundo inteiro de ideias.

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