segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Insônia




The Eye of Surrealist Time by Salvador Dalí, 1971


É comum, não sei por que, de eu anoitecer tarde. As vezes já pela manhã eu morro. Mas o que acontece mais é de eu anoitecer cedo. Ainda dia, tenho preguiça das pessoas, da ciência de viver. Queria dar de inútil até cansar. Sair por aí, no desmundo. Me enferrujar de vida. Apodrecer de flor virando fruto. Passear de voo n'água salgada, salobra, solar, que nem natureza. Depois, quem sabe, eu saberia começar de novo? Denoviar.
            Continuo insone e me preocupo com o dia que me espera amanhã, que me quer dormida. E já vi tudo: amanhã anoiteço de manhã! Quem vê o amanhã é vidente. Videntiei. Se ao menos eu descobrir porque não consigo desligar talvez eu consiga resolver o insônio. Devagar vou me procurar que é para entender.
            Ah! Entendi! É que sã no silêncio tardio, eu verso minha loucura mais necessária. É que as palavras tem seu horário próprio de nascer. Elas me largam e se escrevem antes de me ninar. Pronto, era isso. morta. Beijo. Tenho que ir pegar o sono.
            Mas desapegar de vento e de palavra é que é difícil. Eu vou dormir e eles vem me cutucar porque acabo de ler o "idioleto Manuelez" e explodi em palavras minimamente julianinas. Não consigo dormir nem fugir, as palavras me agarram no laço cor azul. Se misturam com lembranças verdinventadas e viram minha realmente vida, mas só a passada, já colorida. Não dou para vidente que sente a cor do amanhã. Minha mente brinca de pintar poesia de barrosa. E continua tarde, em breve amanhece outra cor, e eu continuo aqui.
            Ah! Entendi! É essa cama, não está acostumada comigo. Não me aconchega. Entendo a cama, sinto o mesmo por ela. Primeira vez é sempre estranho.
            Já sentindo a ressaca da embriaguez do cansaço de brigar pelo sono vou vomitando tudo o que penso.
            Hoje lembrei de você. Justo quando me deu aquela batedeira. Comentei com a psicóloga e ela disse que era emocional. Claro que eu já sabia. Qualquer coisa que faz o coração batucar forte assim, só podia ser emocionante mesmo. E nem foi pelo que era naquele seu tempo, mas voltei ao tempo em que era você o que me disparava o peito, me fazia desfôlega.
            Tempo em que eu era toda linda e feliz e triste e ainda sou. Vão dizer que foi pouco tempo que passou. Mas eu sou outra beleza bem maior agora. Talvez igualmente linda para os olhos comuns. Igualmente gente para os generosos. Fingindo mudar de ser a mesma. Ninguém volta para o que era há tempo.
            Namorocleudar é verbo antigo demais de bom. Foi verbo corretamente incorporado a minha gramática  particular naquele tempo. Faz tempo que acabou. A gente se encheu de tanto se amar. Mas cada um amava demais da conta a si mesmo. Tinha muito tempo que o tempo que tinha pela frente era muito. Tava bom de acabar, pra dar lugar pro tempo passar. E Passou. Namorocleudamento caiu no desuso. Mas nunca esqueci de me/ti amar. Porque respeito mais o que vem antes e menos o depois. Acho que chegar antes tem a importância de ser mais antigo. De um jeito ou de outro tudo é incorporado e o passado me contribui.
            Sei que eu posso parecer doida de pedra, mas num é de pedra não. É de pessoa mesmo. Que pedra não doida. Pedra pedra mesmo. Gente é que dá de inútil assim. Inventa palavra para tornar o amor maior e único, como se já não fosse.
            E eu aqui, acesa no escuro só lembrando do tempo que eu fazia a dois o que neste exato momento faço sozinha. É que eu não sabia que sabia. Agora já verso poesia só minha.
            Continuo aqui. Ainda sou o que sempre fui. Vivo cheia de mim. Espero que chegue logo. O chegar tem a importância de vida ou morte. Que chegue e fim. Espero que chegue longe. Pois antes nunca o que tarda do que o sempre curto, perto, raso. Antes som do que mal acompanho. Ouvindo essa solidão amanhecida. O que é impossível porque natureza nunca é só. A mim é natural ser. Dou pra indizível. Mas estou só pass(e)ando. Com licença! Até mais nada.

            Depois de muita lombra foi que descobri a razão da batedeira, que era a mesma razão da insônia delirante. Foi aquele chá que concentrei muito para concentrar melhor na escrita de trabalho. Culpa dessa ciência que não me cutuca mais nada. É palavra sem graça. Fosse inventada seria mais verdadeira. Ciência tem a dureza crua de explicar por dentro o que é mais belo quando de fora e indizível como eu. Emocional que nada! Chá de acordar se concentrado de amais me disritma toda, batimento e relógio. Sou fraca pra esticamento de dia. Só produzo bobagens faladas na língua dos bocós.

4 comentários:

  1. Fui remetida a alguns textos da Clarice Lispector nesse momento.... Não sei exatamente qual, mas hei de lembrar!
    Posso publicar na Psiquê?

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    1. Para mim dois elogios. Remeter alguém à Clarisse e ser publicada na Psiquê. Muito obrigada. bjs e desculpe a demora na resposta

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  2. Que mulher tão bela, e tão profunda!

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  3. Brigada Érico! E o !Enquanto Vocês Dormiam"?

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