Tenho esse problema de memória
fraca. Juro que vou relatar aqui absolutamente toda a memória que tenho da
infância. O pouco que me lembro do passado, não importa se há muito tempo
passado ou pouco, eu não sei se é invenção ou fotografia antiga que já vi e
inventei memória a partir daí. Deve ser isso mesmo.
Lembro-me de mim,
ainda bebê, no meu quarto azul, de móvel azul com muitas gavetas. Além do
quarto azul, sempre tive cabelo curtinho igual a de menino. Mamãe queria que eu
fosse homem. Lembro-me de dias cinzas e de não respirar bem, de tossir. Lembro-me
de um barulho de trem ou avião que eu ouvia do quarto, era marcante e
frequente. Lembro-me do zoológico. Eu andava animada por lá, via a girafa, o
leão, os macacos. Quando criança eu morava em São Paulo, isso explica a
bronquite dos dias frios e da poluição. Lembro-me que recebíamos amigos dos
meus pais em casa. Lembro-me do cachorro Derik, um samoieda lindo,
todo branco, que me fez companhia. Sempre gostei mais de bicho que de gente. A
gente se entendia melhor. Talvez porque eu não era boa de papo, não fazia
amigos facilmente. Faz pouco tempo que isso mudou. Lembro-me de fazer bagunça
na sala. Uma vez eu me lambuzei inteirinha de Hipoglos, comi o tubo inteiro da
pomada! Delícia! Lembro-me de uma mulher negra e cheirosa que me carregava no
colo e me entregava para minha mãe, quando ela me buscava na creche. Lembro-me
do cheiro de éter do meu pai, empestava a casa toda quando ele chegava. Eu
adoro aquele cheiro característico de hospital.
Não tinha muito sol nem praia nem família, tudo isso eu só conheci depois. Já
em Fortaleza, eu tinha endereços certos todos os dias: escola, natação, balé e, aos sábados, íamos à praia e depois ficávamos até de noite na casa do tio Beto
Jorge. Os adultos reunidos numa mesa redonda, fora da casa, no jardim. Uma vez
voltei ofegante da brincadeira para descansar no colo do meu pai e tomei de um
gole só o copo de água na frente dele. Cuspi tudo no susto. Isso é vodka, minha
filha! Riam alto todos na mesa, inclusive meu pai, que me deu coca-cola em
seguida, enquanto eu lacrimejava com o rosto vermelho.
Depois do divórcio, passávamos os
domingos juntos também. Meu pai e eu. Sempre jantávamos em algum lugar. Meus
favoritos eram o Parque Recreio e um outro que não lembro o nome, mas não
esqueço a sobremesa de sorvete com calda dura de chocolate que eu quebrava com
as duas mãos e a colher, antes que coubesse na boca. Conversávamos francamente
sobre tudo, eu me sentia adulta quando éramos só nós dois. Alguns domingos, almoçávamos no
Iate Clube, onde uma vez eu parecia me afogar na piscina, mas era brincadeirinha.
Eu imaginava que eu era uma sereia presa dentro de um aquário, querendo
sair. O salva-vidas me viu debatendo dentro d’água, mergulhou e me
puxou, e me pôs no colo do meu pai, que estava muito próximo de mim, mas de
costas. Ficou com uma cara de tacho, coitado. Eu chorava do susto e da vergonha,
ele preocupado e envergonhado me consolava. Depois da piscina, nós almoçávamos
filé com fritas e, por fim, um mousse de maracujá. Depois eu escondia a colher
(de metal, pesada) da sobremesa no jardim, que era uma floresta encantada onde
eu era uma princesa que conversava com as árvores e precisava enterrar o
tesouro dos piratas.
Nas quartas-feiras, papai nos
levava de manhã ao colégio, entrava e ficava uma meia hora lá, sentado ao nosso
lado, até a hora de formar a fila para entrar na sala, quando ele se despedia.
Eu gostava das quartas, mas geralmente não falávamos nada, e isso era estranho.
Acho que ele é mal-humorado pela manhã. Costumávamos viajar muito,
sempre de carro, para alguma praia no Ceará ou no Piauí ou no Rio Grande do
Norte. Uma vez, na Praia da Baleia, eu bem pequena, não usava o sutiã do biquíni.
Como era de costume interagir com animais e não com gente, me
divertia observando aqueles "insetos fantasiados de búzios" na areia,
até encontrar um cachorro sem dono que julguei ser meu amigo. Brincávamos de
pega-pega até o momento em que o cachorro não gostou de alguma coisa que eu fiz,
rosnando para mim, me deu uma carreira e me mordeu a bunda, quase arrancando
meu biquíni. Abri um berro e corri para me esconder atrás da mamãe. Até hoje me
lembro disso, como na imagem do protetor solar da Coppertone.
Mamãe
me dava tapas na mão se eu fizesse algo errado duas vezes. A primeira vez que
menti e fui descoberta, levei tapinhas na mão, mas o meu pai não me deixou de
castigo nem brigou nem nada, só disse estar decepcionado comigo. Com isso, me
fez chorar muitas noites, de vergonha e medo de que ele deixasse de me amar.
Um pouco maior, eu vivia muito preocupada com minhas irmãs. Por ser a mais
velha, me sentia responsável por elas. Um dia na barraca (do Loiro) de um
restaurante na Praia do Futuro, ouvimos um tiro, muito próximo. Corremos todos
para perto do mar, muito assustados; eu tremia e minhas irmãs choravam. Papai
estava pálido, mas tentava nos acalmar. Foi um louco que, numa discussão com a
mulher, sacou a arma e atirou para cima. Por sorte não feriu ninguém, aquele
idiota! Mas isso não afetou nossa rotina. Lá eu comia caranguejo todo sábado. O
nosso era especial. Papai ligava e já avisava quantos
queria. O Loiro escolhia os melhores caranguejos da casa e
reservava. Esse garçom, amigo, costumava fazer a conta de cabeça enquanto o papai
tentava atrapalhar falando números aleatórios perto dele. Lá mesmo foi onde
aprendi a beber cerveja, bem antes dos 18 anos, pra não "passar sufoco".
Meu pai queria que eu soubesse beber para me proteger. E em quem não bebe ele
não confia jamais. Deve ter algo a esconder, ele diz.
Gostava de almoçar com minhas
irmãs vendo Garfield e, mais velhas, preferíamos o Bob Esponja. Legal era ficar
na janela do carro, e eu sempre ganhava a disputa. Apesar de sermos três, eu
nunca ia no meio do banco traseiro, impunha minha autoridade de mais velha,
chata, e escolhia primeiro meu lugar. Seu Edivaldo, o motorista, se sentia meio
pai das três, muito responsável, cuidava como se fôssemos dele. Não gostou nem
um pouco quando comecei a namorar e ele era obrigado a levar o garoto no carro
pra minha casa. Fazia uma cara feia! As figuras masculinas ocupam um espaço
considerável na minha memória. Freud explica.
Papai tem frases celebres:
retardada, oligo!; ah, uma jaula!; Piorou muito!; Pula, toby, pula!; Mestrin,
uma cerveja!; Bom "dê- mais"!; Lá vem a lua nascendo, redonda como um
tamanco, sai do "mei" dona Maria, se não a vaca te pega! Eu usava
desse palavreado como se fosse natural chamar alguém de oligo ou o garçom de
Mestrin. Já não tinha muitos amigos, e ainda perdi alguns até perceber que
chamar alguém de "retardada" é ofensivo.
Lá em casa só quem sabe dançar
sou eu. O papai é a própria personificação da falta de ritmo, minhas irmãs também
não engataram nem balé nem jazz. Devo ter puxado à mamãe. Mas, "pera um pouco",
nunca vi a mamãe dançar! Se quer me lembro dela batendo pezinho, acompanhando
uma batida. Bom, ainda bem que eu não escolhi ser bailarina, vai ver eu também não
sei dançar. Decidi ser cientista para um dia descobrir uma cura para uma doença
qualquer, que meu pai, como médico, poderia tratar. Virei cientista de planta,
mas tudo bem, porque cirurgião plástico não trata lá muitas doenças mesmo. Mas
esse texto é sobre infância e isso daqui já é vida adulta, ou pelo menos
deveria ser.

Lindas lembranças de uma criança feliz. Missão cumprida.
ResponderExcluirSua narrativa é envolvente, sinestésica, a gente "se sente lá". Parabéns, Xuzinha!