Desenho de Clara Veiga Carvalho, 10 anos. Publicado por Ana
Virgínia Balloussier e Gabriel Cabral na Revista Folha de São Paulo em
14/12/2014
Clara Veiga Carvalho, 10 anos,
espírita: “Deus criou a borboleta. Ela é bonita e feliz. Começa como se fosse
um bicho horroroso, gosmento, e vira uma borboleta linda. É como o espírito que
reencarna: você vai crescendo e evoluindo”.
Beatriz Dias Samuel, 8 anos,
católica, diz que “no antigo tempo, não cortavam cabelo, então Deus tem cabelo
longo. Deus estão no meio do coração de todo mundo. Eu rezo pra Ele deixar a
gente ficar com um recreio um pouquinho maior"
Pietra Hanna Castanho, 10
anos, é evangélica e definiu: “Deus nos ama e nos ilumina. Ele me ajuda quando
alguém briga comigo”.
Ariom Scheffler, 11 anos, budista,
explicou: “Não tem um Deus físico, Deus é tudo e tudo é Deus”, disse. “Ele é
feito de luz. O arco-íris, no budismo, representa uma pessoa com coração
iluminado”.
Manuella Araújo da Costa, 10
anos, candomblé, afirmou que para ela Deus é Oxum. “Oxum é a santa que me
protege. Ela tá no mato, para curtir a vida”.
Luke Saul Jospa, 9 anos, judeu
comparou: “Para nós não tem inferno, só céu. Assim: vamos fingir que você está
no teatro. Se foi uma boa pessoa, ficaria na frente, mais perto de Deus. Se foi
uma ruim pessoa, ficaria lá atrás”.
Núbia Selassie Cestaria
Granello, 6 anos, da religião rastafári e fala: “Ele é o meu coração e fica
batendo em todos os momentos. Peço a Jah que o mundo fique bem limpinho. Sonhei
que Jah estava no deserto e fazia todas as pessoas felizes".
Devota da religião União do
Vegetal (dissidência do Santo Daime), Darah Cally Patrício, 8 anos, diz: “É
muito legal beber (ayahuasca). Tem gente que vomita, mas eu não sinto medo,
sinto amor. E vontade de rir muito! Já vi árvores falando comigo”.
Mohamed Hussein Abid Ali, 8
anos, muçulmano, deu uma resposta divertida: “Deus é tudo para mim”. Eu peço
para ele deixar chover, mas as vezes não penso só na água... penso também em
jogar Nitendo DS".
Essas foram crianças de seis a onze anos de idade entrevistadas
pela Folha de São Paulo sobre o que pensam de Deus e quais são os seus maiores
pedidos.
Enquanto
eu continuo na minha busca, essas crianças já tem tudo resolvido! Grande parte
da minha fé me foi ensinada como disciplina curricular, no colégio católico e
tradicional onde estudei toda a vida. A educação católica me era muito natural,
dentro de uma família católica apostólica romana exemplar. O amor por aquele
Deus que me conhecia intimamente era genuíno e familiar. Dele eu nunca duvidei.
Mas confesso que o segundo sacramento, a crisma, foi um ano de preparação que
por vezes eu achei demasiado, insistente, desnecessário e cansativo. Eu não
entendi tantos mistérios. A fé deu lugar a muitos questionamentos e a sensação
de inadequação àquele sistema. Havia começado a rebeldia sem causa da
adolescência. O amor pela ciência, o pragmatismo, a crítica aguçada, a
busca por respostas racionais e consistentes me fizeram desistir daquele Deus.
Ele não cabia na explicação da evolução de Darwin, nas discussões da faculdade
de ciências biológicas. Muito questionadora e curiosa, me habituei à
metodologia científica, às teorias parcimoniosas e refutáveis. Eu não percebera
ainda, mas ali teve início minha busca pelo preenchimento do vazio que a ausência de fé deixara. Havia uma
boa dose de incompletude na minha negação do divino; um abismo inexplicável
entre a fé infantil e a razão sistematizada da adolescência.
Minha
adolescência durou muito. Só entrei na vida adulta aos 27 anos. E nessa longa
adolescência eu mudei de ideia algumas vezes sobre Deus. O convívio com amigos
que faziam parte de um grupo de jovens católico me virava ao avesso, eu me
tornei uma menina desobediente, minhas ideias não concatenavam com a vida de
servidão, nem com as regras pré-estabelecidas. Eu estava mais pro diabo:
namorava sem culpa, bebia e fumava sem culpa e, apesar do egoísmo mimado,
procurava não fazer mal a ninguém, ou a quase ninguém, e isso se tornou minha
religião. Inventei um Deus próprio e neguei o catolicismo. Peguei gosto pela
descoberta, e nada mais desbravador do que viajar: viajei por universidades e
institutos de pesquisa pelo Brasil e tive uma oportunidade maravilhosa que me
levou até os EUA. Lá foi outra grande mudança. Conheci a liberdade da
disciplina daquela gente simplória do interior de Ames, Iowa. O esforço pelos
amigos era quase religioso. Os jovens americanos que conheci viviam com uma
ausência de confortos como eu nunca tinha experimentado. Junto com eles
frequentei a igreja, o que fez muito sentido dentro daquela nova realidade.
Encontrei em Deus a explicação pra minha sorte, meus vários anjos que cuidaram de
mim em todas as minhas andanças longe de casa. Voltei mudada, disposta a ser
feliz e fazer os outros felizes. Retomei a fé, passei a frequentar as missas de
domingo com muito gosto, retornei ao balé, que eu tinha abandonado já fazia dez
anos. Mas, não durou muito. Aquilo perdia o sentido dentro do contexto que eu
estava inserida. Mais uma vez, minha busca por respostas me levou a negar Deus.
De novo, inventei um Deus próprio para quem eu apelava nos momentos difíceis,
mas também durou pouco. A lógica do mundo passou a ser apenas ação, reação e
sorte, e isso me preencheu por um tempo. Eu achava não precisar de nenhum Deus.
Por
pensar assim, nada era proibido, desde que eu não causasse mal a ninguém, e a
contínua necessidade de entender a vida além da explicação científica me levou
a procurar outras religiões. Espiritismo, Umbanda, tudo que era possível
visitar me interessava, descobri beleza em tudo. Todas fazem sentido, dentro de
uma lógica própria, mas mesmo assim, não achei a fé.
Esse
texto não tem desfecho porque continuo nessa busca. Meu caminho agora é a yoga,
textos de monges tibetanos, budismo indiano... Podem me chamar de confusa!
Posso não saber onde estou indo, mas, se eu caminhar o suficiente, devo chegar a
algum lugar.
Nesse
momento vou simplificar e dizer que Deus é amor, E o que é amor?
Abaixo transcrevo algumas definições de amor por
crianças de quatro à
oito anos coletadas
numa pesquisa feita por profissionais de educação e psicologia (Autor
desconhecido):
"Amor é quando alguém te magoa, e você, mesmo muito magoado, não grita, porque sabe que isso fere seus sentimentos“ Mathew, 6 anos.
"Quando minha avó pegou reumatismo ela não podia te debruçar pra pintar as unhas dos pés desde então é meu avô que pinta pra ela mesmo ele tendo artrite." Rebecca, 8 anos.
"Amor é quando uma menina coloca perfume e o garoto põe loção de barba do pai e eles saem juntos e se cheiram. “ Karl, 5 anos.
"Eu sei que minha irmã mais velha me ama, porque ela me dá todas as suas roupas velhas e tem que sair para comprar outras" Lauren, 4 anos.
"Amor é como uma velhinha e um velhinho que ainda são muito amigos, mesmo conhecendo-se há muito tempo" Tommy, 6 anos.
"Quando alguém te ama a forma de falar seu nome é diferente.“ Billy, 4 anos.
"Amor, é quando você oferece suas batatinhas fritas sem esperar que a pessoa te oferece as batatinhas dela.“ Chrissy, 6 anos.
"Amor é o que está com a gente no Natal, quando você pára de abrir os presentes e os escuta" Bobby, 5 anos.
"Se você quer aprender a amar melhor, você deve começar com um amigo que você não gosta“ Nikka, 6 anos.
"Amor é quando você fala pra alguém alguma coisa ruim sobre você e sentimento que essa pessoa não ame mais você por causa disso ai você descobre que ela continua te amando e ate te ama mais ainda. “ Ssmantha, 7 anos.
"Há dois tipos de amor, o nosso amor e o amor de Deus, mas o amor de Deus junta os dois“ Jenny, 4 anos.
"Amor é quando mamãe vê o papai suado e mal cheiroso e ainda fala que ele é
mais bonito que o Robert Redford“ Chris, 8 anos.
"Durante minha apresentação de piano vi meu pai na plateia me acenando e sorrindo e era a única pessoa de quem eu não sentia medo.“ Cindy, 8 anos.
"Amor é você falar pro menino que camisa linda você ta usando e daí ele passa a usar a camisa todo dia." Noelle, 7 anos.
"Não deveríamos dizer eu te amo a não ser quando realmente o sintamos. E se sentimos, então deveríamos expressá-lo muitas vezes. As pessoas esquecem de dizê-lo" Jessica, 8 anos.
"Amor é se abraçar, amor é se beijar, amor é dizer não“ Patty, 8 anos.
"Amor é quando seu cachorro lambe sua cara, mesmo depois que você deixa ele sozinho o dia inteiro“ Mary Ann, 4 anos.
"Quando você tem amor por alguém seus olhos sobem e descem e pequenas estrelas saem de você.“ Karen, 7 anos.
"Deus poderia ter dito palavras mágicas pros pregos caírem do crucifixo mais ele não disse, isso é amor.“ Max, 5 anos
Referências
1) Matéria da Folha de São
Paulo, publicado na revista eletrônica Serafina no dia 14/12/2014, por Ana
Virgínia Balloussier e Gabriel Cabral, São Paulo.
http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2014/12/1560920-criancas-de-9-religioes-diferentes-desenham-seu-jeito-de-encarar-deus.shtml?cmpid=%22facefolha%22
2) Redação da Revista eletrônica Catraca Livre em 14 de
junho de 2014 às 10:12.
https://catracalivre.com.br/geral/rede/indicacao/criancas-definem-o-que-e-amor/

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