segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Tudo que a ciência não explica permanece belo


Onde está a beleza da ciência? Neste momento da minha vida, e note que é recente minha descoberta, eu entendo que a ciência remove a beleza das coisas. Ela insiste na crueza e assim acaba por desnudar o indizível, retirar o espanto, afastar a incredulidade, recolher a surpresa, matar a beleza. 

Sou professora de genética, então, vou usar um tema prático: dou aula sobre o DNA, e vou usa-lo como exemplo. Nós felizmente conhecemos sua estrutura do nível molecular ao atômico. Já criamos modelos, mapeamos a espacialidade, sistematizamos os processos de maneira didática, roteirizamos as vias, explicamos as reações químicas, reconhecemos a física da atração, formulamos a matemática das proporções, calculamos os ângulos das ligações. E agora, o que sobrou de belo depois desse desmanche?

Não que não seja fascinante. Para muitos é nítida a beleza dos ångströms da ligação fosfodiester (grau da angulatura que existe na ligação entre uma unidade e outra do DNA). Não posso negar que existe sofisticação na explicação elegante e simples, na sapiência dos processos metabólicos e no desenrolar da implicação prática do conhecimento.

Mas o que realmente fascina a todos os meus estudantes é o grau da impossibilidade matemática da probabilidade disso existir e acontecer de forma tão corriqueira e banal em todas as nossas células. O que lhes deixam boquiabertos é a natureza perfeitamente intricada e absolutamente necessária dessa estrutura para a vida. O que embarbasca é a incredulidade de que isso teve um começo remoto, um inicio incerto. O que fica de belo é a incapacidade de descrever, analisar, dissecar a concretude da importância desses fenômenos. 

A ciência desembaça o romantismo. E isso é o fim dele, pois a raiz do romantismo é a impossibilidade de definir concretamente a linha do horizonte entre mar e céu. Ele é nebuloso,  imperfeito, desbotado, fora do foco. 

Afinal, quem é mais belo: Michelangelo ou David? 

Sim, é verdade que não haveria David se não existisse seu autor, porém, há sim, beleza sem ciência.


E não me escapa, caro leitor , a contradição em que me pus. Além da frieza dura da pedra não poder jamais vencer a beleza e complexidade do seu escultor, além impossibilidade de negar o belo da ciência presente no ato de esculpir e parte de todo método, além de tudo isso, é nítido meu amor pela ciência, mesmo quando tento matá-la, pois o que  vivo agora é a contradição feito birra infantil e competitiva. Que linda é a autoanálise.

Nenhum comentário:

Postar um comentário