Onde
está a beleza da ciência? Neste momento da minha vida, e note que é
recente minha descoberta, eu entendo que a ciência remove a beleza
das coisas. Ela insiste na crueza e assim acaba por desnudar o
indizível, retirar o espanto, afastar a incredulidade, recolher a
surpresa, matar a beleza.
Sou
professora de genética, então, vou usar um tema prático: dou aula
sobre o DNA, e vou usa-lo como exemplo. Nós felizmente conhecemos
sua estrutura do nível molecular ao atômico. Já criamos modelos,
mapeamos a espacialidade, sistematizamos os processos de maneira
didática, roteirizamos as vias, explicamos as reações químicas,
reconhecemos a física da atração, formulamos a matemática das
proporções, calculamos os ângulos das ligações. E agora, o que
sobrou de belo depois desse desmanche?
Não
que não seja fascinante. Para muitos é nítida a beleza
dos ångströms da
ligação fosfodiester (grau da angulatura que existe na ligação
entre uma unidade e outra do DNA). Não posso negar que existe
sofisticação na explicação elegante e simples, na sapiência dos
processos metabólicos e no desenrolar da implicação prática do
conhecimento.
Mas
o que realmente fascina a todos os meus estudantes é o grau da
impossibilidade matemática da probabilidade disso existir e
acontecer de forma tão corriqueira e banal em todas as nossas
células. O que lhes deixam boquiabertos é a natureza perfeitamente
intricada e absolutamente necessária dessa estrutura para a vida. O
que embarbasca é a incredulidade de que isso teve um começo remoto,
um inicio incerto. O que fica de belo é a incapacidade de descrever,
analisar, dissecar a concretude da importância desses fenômenos.
A
ciência desembaça o romantismo. E isso é o fim dele, pois a raiz
do romantismo é a impossibilidade de definir concretamente a linha
do horizonte entre mar e céu. Ele é nebuloso, imperfeito,
desbotado, fora do foco.
Afinal,
quem é mais belo: Michelangelo ou David?
Sim,
é verdade que não haveria David se não existisse seu autor, porém,
há sim, beleza sem ciência.

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