quinta-feira, 9 de abril de 2015

Estou Grávido


Amy Judd. Butterfly.


Preparando uma pessoa dentro de mim. Cozinhando um serzinho. Todo dia ele cresce mais um pouquinho. Vou adicionando aos poucos suas partes, pensando no seus sonhos, nas suas atitudes, nas suas reações e nas suas relações. A cada nova experiência minha, ele muda um pouco. Vai se adaptando ao espaço que ele pode ocupar. Se retorcendo lentamente até encontrar a posição mais acertada.

Eu já o amo tanto, tanto. Sempre o amei, mesmo antes dele existir. E é por amá-lo tanto que o fiz. Comecei a fazer, pelo menos. Ele é tudo o que eu sempre quis ser. É por isso que demora... O tudo é o que demora. Nós ainda estamos na busca do que vai ser. E para sempre estaremos nessa busca. Vamos andando, vendo, provando, aceitando e contestando o que existe. Vamos pensando o que poderia ser então, se não estiver bom. E assim ele vai tomando forma. Se desenrolando, se equilibrando entre o pode ser e o que é.

Agora o amo menos. Entendo que não é amor o que o alimenta. Ele tem fome de existir. E ainda nem está pronto, mas me rasga para sair. Ele é mais forte a cada dia, mais vivo, mais real. Vai me substituindo aos poucos, deixando pra trás partes desnecessárias, cada vez maior e mais leve.

Eu sou feliz de vê-lo surgir, me sinto mais eu, agora. Ainda longe de ser completo, porém, eu e ele, eu cada vez mais ele, somos um. E o mais belo disso tudo é que sempre fui eu, e vou continuar sendo, só que novo e melhor pra quem não espera nada de nós.

Estou finalmente me tronando o que sou. Recomendo a gravidez à todos vocês. Não sei se é possível ser aquilo que se quer, que se pensa, que se elabora e lapida.  Mas sei que a tentativa já vale a vida.

Dedico este texto  à Chris de Lavour. Uma mulher grávido, que no momento, também está grávida.


terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Frida Beija Flor




 Graphite & Oil Paintings Merge Nature and Anatomy by Nunzio Paci



Essa é a história de quando, como na figura, ganhei um passarinho para o lado de dentro:
Hoje um beija-flor veio na minha janela. Só achou cactáceas sem flores, não demorou mais que um minuto, e foi embora. Eu o observei e sorri. Dizem que beija-flores são presságios de coisas boas, pensei. Se não são, apenas observá-los, por segundos, já é bom, é bonito, há algo de inexplicável no serzinho flutuando no ar. Minutos depois fui atender a um chamado, deram-se conta de que tinha um ninho de calopsitas abandonado. Dos 3 filhotes dois já mortos. Fiquei com o terceiro, alimentei, ninei, montei um improviso quentinho com luz incandescente para esquentá-lo. Batizei de Frida. Ninguém acreditou que ele vingaria, só eu. Guiada pelo completo desconhecimento, munida de intuição, amor e google, fiz tudo que aprendi que devia fazer pelo bebê. O dediquei todas as horas entre 14 e 23, quando ele morreu. "Esses bichinhos são difíceis de cuidar", "talvez foram abandonados pela mãe porque ela percebeu algum defeito", me mimaram.  Era fato que o papo estava estranho, não esvaziava, li que aquilo era algo ruim e ele precisava de um veterinário. Mas já era tarde quando procurei por "problema no papo filhote calopsita" na máquina que calcula respostas. Nos últimos minutos, quando começou a ofegar sua respiração, ele abriu os olhinhos. De tanta força e dor? Me veria antes de ir? Minutos de agonia quase silenciosa a dele, a minha era audível. A gata notou meu choro, se aproximou pela primeira vez, desde que fiz Frida minha prioridade. Ela venceu seu ciúme para me consolar, me lambeu o braço, e ficou juntinho. Eu entendi, ela também. Frida cansou da luta. Agora acho beija-flores mais tristes. Frida Beija Flor, é o seu nome completo.